28.2.10

A imaginação no poder

"E o espectador a estranhar tudo. Como se estivesse sendo chamado a admitir a consciência como irmã do inconsciente. Encontrar seu duplo. Divertir-se com aquilo que Bernardo Bertolucci chama de alegria da contradição".

Di Carlo


"Podemos dizer que está acontecendo algo? Não, não acontece nada. As coisas não são como vemos, nem como geralmente sentimos. Mas como o teatro mostra. As coisas são receptáculos do mal, ou seja, da irrealidade. O teatro é uma das vias que conduz o homem à realidade. No início, as coisas eram verdadeiras. O mundo na sua infância era real. Tinha uma ressonância nos homens. Olhar para o mundo naquele tempo era ver o infinito. Agora, está crescendo em mim algo de horrível. Que não vem de mim, mas das trevas que estão em mim. E logo não haverá mais nada. Só as nossas máscaras obscenas que imitam a realidade no meio dos escarros e do esterco do mundo".

Fala de Jacob (ou seu duplo) no filme Partner, de Bernardo Bertolucci.


"Pier Paolo Pasolini considerou Partner excepcional. Na verdade, achou mesmo que o filme é efetivamente revolucionário na história do cinema. A forma como foi construído, afirma Pasolini, faz com que o espectador perca a ilusão de que está dentro do filme. Ou seja, nos mantemos espectadores, como quando estamos na platéia do teatro - no sentido tradicional do termo. O espectador não toma parte na ação, observa Pasolini, ele testemunha. Os únicos momentos onde essa sensação diminui dá-se nas cenas onde existe o contracampo - e Pasolini acha que são em número pequeno demais para destruir a sensação de testemunho. E completa: uma técnica ou estilo semelhante não havia jamais sido utilizado, que eu saiba".

Roberto Acioli de Oliveira


"Eu creio que Partner seja um dos filmes mais
livres de todos que realizei. E é também um dos
filmes mais difíceis para o público".

Bernardo Bertolucci
por Os Poetas Elétricos [11:43]
25.2.10
minha poesia sempre
corre risco de
sorte súbita.

carito
por Os Poetas Elétricos [11:42]
23.2.10
gravidez de risco

se de poesia eu engravido
não sou mágico
não duvido:
sou trágico!

é certo:
a poesia é um parto
ou estou perto
ou estou farto.

minha gravidez
é de risco
e rabisco
mais de uma vez.

a poesia em gestação
até que tenta
e nem sempre
agüenta.

às vezes nasce, cresce, corre
dura
às vezes morre
prematura.

nessa aventura imaginária
não quero mais parto natural
agora eu quero uma cesária
évora!


carito
por Os Poetas Elétricos [22:49]
22.2.10
gosto de poesia
quando em cada sílaba
uma cilada.

carito
por Os Poetas Elétricos [19:26]
21.2.10

Filmando espontaneidade: uma reflexão sobre "Dersu Uzala" e "Dez"

Dois filmes diferentes, de estilos e épocas diferentes: "Dersu Uzala" de Akira Kurosawa e "Dez" de Abbas Kiarostami. O primeiro assisti faz muito tempo e o revi faz pouco. O segundo assisti ainda mais recentemente. Quando terminei de assistir a "Dez" imediatamente me lembrei de "Dersu Uzala". E fiquei intrigado com a espontaneidade com a qual me veio tal associação. Então saquei: espontaneidade!

É a espontaneidade que há nos dois filmes que tanto me fascina. Em "Dersu Uzala" a ficção se confunde com a realidade e em alguns momentos parece mais um documentário. Principalmente quando a natureza é personagem e atua de uma forma tão forte e, logicamente, natural, que me pergunto: como roteirizar cenas que foram flagradas naquele momento, no trânsito imprevisível da natureza?

O mesmo em "Dez" - filmado totalmente no interior de um carro. Os diálogos no carro em movimento, a interação com outro tipo de trânsito (o urbano) que também parece não ter sido roteirizado. Enfim, tenho a impressão que nesses filmes o roteiro é um norte que de vez em quando interage com outros pontos cardeais. Evidentemente que a história, a temática, as questões levantadas, a utilização dos recursos técnicos, tudo tem seu lugar claro no conjunto da obra, tem sua força e importância prioritária indiscutível. Mas assim como em "Dersu Uzala", em muitos momentos há em "Dez" uma entrega do filme a uma espécie de acaso ou improviso que é captado por uma câmera meio big brother a serviço de um estilo, uma estética, um fazer diferenciado. A espontaneidade e ambigüidade desses filmes apontam para o desconcerto que faz deles obras originais no mundo do chamado "cinema de autor".

No site Contracampo, Filipe Furtado escreveu: "Abbas Kiarostami descreveu 'Dez' como um filme sem diretor. Paradoxalmente quanto mais sem diretor o filme se revela, mais ele se afirma como um filme de Abbas Kiarostami". E mais: "A função de diretor parece se tornar muito mais a do promotor de uma situação"... "o cineasta acaba com a linha tênue do documental e ficção".

Quando revi "Dersu Uzala", lembro que alguém me disse: mas você ainda tá nessa de "Dersu Uzala"?

Nesses tempos de ritmo frenético televisivo e de velocidades hollywoodianas parece não haver espaço nem tempo para o "pensar imagem".

Eu bem poderia ter chamado esse post de "Em busca da espontaneidade perdida".

Ou: "Por uma vida mais slow-motion".


Carito

P.S: Dersu Uzala é dez!
por Os Poetas Elétricos [23:38]
19.2.10
Seqüência final de "Os Incompreendidos".

A razão não é dona do destino

Li em algum lugar uma associação entre o filme "Os Incompreendidos" de Truffaut e o livro "O Apanhador no Campo de Centeio" de Salinger. O filme completou 50 anos em 2009. O autor do livro morreu esse ano. Ambos falam da perda da inocência da infância, da revolta da adolescência, da inquietação da juventude... Eu acho que ainda não perdi essa inocência, essa inquietação... O que me faz falar sobre um livro que nem li. Quase todo mundo leu, menos eu. O que me dá um tempo de sobrevida, pelo menos meta-euforicamente falando, já que ainda posso sentir essa emoção adolescente ao despertar sensações de descoberta. Já o filme eu assisti nesse carnaval. Sempre é tempo de Nouvelle Vague... Lembrei dos meus 20 anos, descobrindo as coisas... As coisas dos outros - Leminski, Chacal, Arrigo Barnabé, "Makaloba", "Morangos Mofados", "Porcos com Asas", "Feliz Ano Velho", "Tanto Faz"... E descobrindo as minhas coisas - meu sexo... minha droga, meu rock and roll... Talvez eu seja um adulto ridículo insistindo nisso. Mas tomando conhecimento do nome original do filme, "Os Quatrocentos Golpes" (que é uma expressão idiomática francesa que quer dizer algo como viver aprontando ou pintar o sete), lembrei da música de Beto Guedes "A Balada dos Quatrocentos Golpes" (composição de Márcio Borges, Thomas Roth e Luiz Guedes): "Dentro de mim uma estrela arde no peito e derrama / Calma, coração, a razão não é dona do destino"...

Carito
por Os Poetas Elétricos [00:22]
18.2.10

"são poços de petróleo
a luz negra dos teus olhos
lágrimas negras saem, caem, doem"...


rock and hudson


são poços de petróleo a luz negra dos teus olhos e a música de mautner cai como uma luva nessa leva de filmes. salve jorge! salve esses filmes maravilhosos e seus diretores voadores. fantasia que me veste, que me despe, que me leva para outro carnaval, folia da alma, sentir a diversidade na adversidade. talvez por isso mesmo, ser adverso por ser diverso. por que a vida não tá mais pra brincadeira? é preciso diversificar, ir pra roraima e no acre ditar... na criança que há dentro do adúltero. brincar com as palavras, não deixar de ser diverso em prosa. pois assim aparece o que carece: o verso, a poesia, o sol, as andorinhas... com quantas linhas se faz um verão de palavras? rezo essa ladainha todo dia, mas você me abraçou agora e eu não te senti para sentir a idéia que escrevia... e não te via... escrevo escravo. como sou estúpido! antes cupido, agora culpado. eu só preciso estar ao seu lado, ficar abaixo da linha da cintura, onde fica a linha do equador, deixar de rimar amor e dor, sentir todo seu calor, alalaô ôôôôô, e atrás, versando, o deserto do saara, deserto que não sara, mas o que sará que sará, chove lá fora e aqui, faz tanto cio, cio da terra a procura do chão, pedras rolando, rock and roll, chão do texas na televisão, lágrimas negras caem, saem, doem, rock and hudson, james dean, elisabeth taylor, outro sonho feliz de cidade, aprendi depressa a chamar-te de cinema... come on, baby, come on, que assim come on a humana idade... algum clássico acontece no meu coração!

carito

"belezas são coisas acesas por dentro
tristezas são belezas apagadas
pelo sofrimento
lágrimas negras saem, caem, doem
lágrimas negras saem, caem, doem"...
por Os Poetas Elétricos [14:38]
17.2.10
"Gosto muito de lembranças. E para ajudar, eu bebo".
(do filme MARIE-JO E SEUS DOIS AMORES)

Recaídas e vindas

Passei boa parte dos carnavais dos anos 80 em Olinda. Não lembro exatamente quando deixei de pular o carnaval lá. Mas lembro que em algum carnaval da década de 90 tive uma recaída. Eu estava em Moreno, interior de Pernambuco, com minha família, descansando em um canto de um hotel fazenda, tranqüilo, na minha. Meu irmão mais velho começou a tomar gim. Eu o acompanhei e não deu outra: com muito gim na cabeça e um cara tocando aquelas músicas típicas do carnaval de Olinda na piscina do hotel, tive uma recaída. E bateu aquela vontade de trocar aquele canto por quatro. E no outro dia logo cedo, nos quatro cantos cheguei e todo mundo chegou, me encontrei com minha amiga Patrícia Torres, com o Elefante, a Pitombeira, e tome ladeira... Pois se o céu pode esperar a Sé não pôde esperar... Mas a Sé não costuma faiar... E tome mais ladeira, e tome pau do índio! Por sinal, por falar em Patrícia Torres, em gim, pau do índio... lembrei que foi ela quem inventou o Gim Morrison! Porque sacou que essa bebida enfeitiça o corpo e atiça a mente. Hoje voltei Recife, em pensamento, foi a saudade que me trouxe pelo braço, e na madrugada dessa quarta-feira as cinzas se espalham em POEMAS DE PUNHO SAUDOSISTA, como esse que fiz no carnaval do ano passado:

CARNAVAL

SE O PIERROT
QUEM ACERTOU
O CORAÇÃO DA COLOMBINA?

Carito
por Os Poetas Elétricos [01:57]
16.2.10
De volta ao quarto

Estimulado por Sheylinha, volto ao "Quarto 666".

Mas vou logo pedindo desculpas, e sem falsa modéstia - é que não sei fazer crônicas como as dela. Também pudera: Sheylinha é profissional, jornalista tarimbada que escreve no, e sobre o, cotidiano, de forma mágica com um olhar hiper-sensível e com prosa poética da melhor qualidade.

Já eu, além de não ser jornalista, escrevo mais pretextos do que textos.

Esse é mais um - pretexto pra finalmente entrar no quarto.

Sinto, sem ser sucinto, por isso não consigo ir direto ao assunto, ou ao recinto. Mas quero destacar os extras do DVD. Mais especificamente a parte que o filme é todo comentado por Wim Wenders 20 anos depois. E comento aqui alguns momentos do filme. Algumas das frases destacadas abaixo, o próprio Wenders destacou:

"O cinema é mostrar o invisível".

(Godard)

"Sei que estou diante da câmera, mas, na minha cabeça, estou atrás dela".

(Godard)

"Os filmes estão se polarizando. Um estilo de cinema, o cinema-sensação tende a ser colossal e bombástico. Isso está muito óbvio. Por outro lado, como eu já disse, há um estilo de cinema muito individual ou um cinema nacional formado por cineastas individuais que hoje em dia é muito mais importante que o cinema que não se distingue da televisão".

(Fassibinder)

Foi a última vez que Wim Wenders viu Fassibinder. Ele morreu 03 semanas depois dessa filmagem. Wenders comenta: "Mal sabia eu que este seria um dos últimos momentos registrados da vida dele".

Em outro momento, Wenders ri observando as imagens de Werner Herzog. Werner desligou a TV e tirou os sapatos para dar seu depoimento. E Wenders comenta: "Há tempos a realidade ultrapassou os sonhos mais loucos do Werner sobre o que seria possível fazer no futuro. A internet não tinha sido inventada e, como eu já disse, ninguém conhecia a palavra 'digital' ".

"Não estou muito preocupado com o cinema. Porque, seja qual for o futuro do cinema, não será o futuro da vida. A vida acontece em outro lugar. Onde a vida for dinâmica, onde a vida toque a gente de forma direta, é aí que vamos encontrar o cinema. E é isso que vai sobreviver. Somente isso sobreviverá para sempre".

(Herzog)

"Vamos pegar as novas tecnologias e utilizá-las sem deixar que os outros as utilizem de forma abusiva. Vamos utilizá-las como forma de expressão".

(Antonioni)

Fiquei emocionado quando vi Antonioni. É um dos meus cineastas preferidos.

A resposta que mais chocou Wenders foi a de um cineasta francês. Mas essa eu não vou contar. E evidentemente estou contando pouco do filme. Sempre falo que filmes existem para serem vistos. E não para serem contados.

Ah! Queria dizer também que não escrevi o nome de Spielberg no time do post anterior por puro preconceito. Antes de assistir ao filme eu já sabia que ele participava do projeto. Não que eu não goste dele - gosto de muitos filmes de Spielberg. Mas era muito mais seguro eu postar - e posar - com Godard, Antonioni, Fassibinder, Herzog, etc. Depois que vi o filme não podia deixar de fazer uma mea culpa aqui: Steven proporcionou uma entrevista muito importante, além de muito divertida.

Wim Wenders no curta-metragem documental "De Volta ao Quarto 666".


E "De volta ao quarto 666" é o título de um curta-metragem brasileiro, do gaúcho Gustavo Spolidoro, que aproveitou a passagem de Wim Wenders por Porto Alegre em 2008. Segundo Marco Tomazzoni, "Spolidoro convidou o cineasta alemão para ficar na frente das câmeras e falar sobre o futuro do cinema, em uma inversão de papéis inspirada no filme 'Quarto 666' ". Leia uma entrevista com o diretor Gustavo Spolidoro aqui.

Mas... cara Sheylinha, caro leitor, cara leitora... Não confiem nesse meu aposento, digo - apontamento. A porta está aberta, é só entrar no quarto. Vejam com seus próprios olhos, e vejam com seus próprios alhos - esse pessoal é meio vampiro! Um time da pesada que me sugou completamente!


Carito
por Os Poetas Elétricos [12:10]
13.2.10

quarto e sala

- é a melhor locadora de vídeos da cidade. lá na "video laser" tem um monte de dvds legais. clássicos, cults...
- tem quarto 666?
- tem quarto 666, 667, 668...

brincadeiras à parte, aluguei quarto 666 de wim wenders. me senti obrigado. como é que eu, um cara que se diz amante de wim wenders, ainda não tinha assistido a esse filme? não! eu não podia mais viver com isso, com essa falta. então desmarquei minha viagem a olinda, desmarquei minha viagem a salvador, deixei de pular o carnaval. e também deixar de descansar no carnaval em marselha (estou influenciado por outro filme também muito legal e que se passa lá, e que também assisti agora no carnaval: mary-jo e seus dois amores). enfim, deixei de pular ou descansar no carnaval, não importa. o que importa é que abandonei tudo por esse quarto. e mentiras à parte, acrescentei quarto 666 ao pacote da folia cinematográfica.

levei o quarto pra sala.

evidentemente que o débito que eu tinha não era só com o cinema de wim wenders. era com o cinema. digo - com o cinema que vai além do entretenimento. pois como diz o blogueiro helder maia:

"para quem pensa cinema para além do entretenimento o filme 'quarto 666' de wim wenders, de 1983, é obrigatório. quando estava a caminho do festival de cannes de 1982, ele resolveu reunir um elenco de grandes diretores para discutir o futuro do cinema. wenders escreve algumas perguntas para que seu elenco de pensadores as respondam. assim, o filme é uma viagem metalinguistica no mundo cinematográfico. o cenário é simples: um quarto de hotel, uma cadeira com o convidado, uma câmera fixa e um televisão ligada."

menti também quando disse que levei o quarto pra sala. meu apto é um quarto e sala praticamente sem paredes, uma espécie de pequeno loft. assim, o quarto já estava na sala antes do filme. o que não estava ocupando nem um quarto do meu cérebro era essa fantástica experiência. agora ocupa mais que um quarto. ocupa todo o cérebro.

não sei se isso que vou revelar agora é mais uma mentira que desmascaro. a verdade é que gosto tanto de wim wenders que escrevi todo o post antes de assisti ao filme. eu tinha certeza que ia gostar do filme então escrevi o texto e depois foi só confirmar a revolução anunciada. hay que escribir, pero... sem perder o trocadilho jamais:

- wenders, você bem que podia ter avisado que vinha junto com godard, fassbinder, herzog, antonioni... quer me deixar louco?
- foi pra isso que eu, wim!


carito
por Os Poetas Elétricos [10:05]
12.2.10
corpo ex-traño
para camus e sheyla

um corpo que
cai
do olhar

no ar
salta

salga

a boca e reincidente
se torna, infelizmente
familiar.

chorar
é queda
d'água.



carito
por Os Poetas Elétricos [20:03]
11.2.10
esse pássaro tá de conversa mole comigo
desse jeito ele vai acabar
me levando no bico.

já com essa menina a conversa tá ficando dura
desse jeito ela vai acabar
me levando no beco.

carito
por Os Poetas Elétricos [21:04]
4.2.10
nesse alaga
diço me disse
:
para atra
verssar
a natureza humana
permaneceremos
jun c os!

ca rito
por Os Poetas Elétricos [20:38]
2.2.10
como meta, a oferenda
para a poesia, desapego
para ser poeta, desaprenda.


carito
por Os Poetas Elétricos [19:26]
1.2.10
Silenciosa serenata

Arte ingrata
Tua silenciosa serenata
Aparece por noites a frio

Troco palavras
Alimento o cio
De nada adianta

A poesia
Hoje
Não se levanta.


Carito
por Os Poetas Elétricos [08:45]
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