Uma bela crônica para uma triste notícia
Transcrevo aqui a bela crônica do jornalista Carlos Magno Araújo sobre a morte de Tico da Costa, no blog Substantivo Plural.
A alegria e a tristeza de Tico Por Carlos Magno Araújo
A besta fera que humilha e elimina é cega. É pistoleira sem mira - cruel e injusta. Não fosse assim teria atingido tantos outros antes de Tico da Costa. Por aí não há quem não mereça. É dos artistas de quem se poderia dizer, sem medo de errar, como se disse um dia de Cascudo - genial e humilde. A convite do meu amigo Roberto Homem de Siqueira estive na casa de Tico da Costa, na Cidade Verde. Deve fazer uns dois anos. Estava também outro amigo nosso, Carlos Roberto Pereira, também jornalista. Com Tico, os irmãos, entre os quais João Salinas, talento, bom humor, simpatia, tudo junto e misturado. Era só uma noite normal de confraternização e amizade. Tico se re-instalara em Natal havia pouco tempo e Roberto Homem, que fez a melhor entrevista já publicada sobre o artista, queria encontrá-lo. Fomos noite adentro, entre vinhos, queijos, cervejas, conversas leves entremeadas pelo talento do anfitrião e dos irmãos. Tico contou sua história desde Areia Branca, como a emoção na infância ao ver dois cantadores de rua tocando violão, num desafio. E lembrou como isso o inspirou. Falou das andanças pelo mundo, da amizade com Phillip Glass e tocou tudo o que pedimos. Tico era um mestre do violão. Tocava com o instrumento nas costas e até com os pés. No You Tube, procurando direitinho, dá para achar imagens dele manuseando seu brinquedo. Era um grande cara que Natal e o Rio Grande do Norte não valorizaram à altura. Saí daquele encontro cismado e encabulado com o fato de nós, da imprensa, também não termos conseguido apresentá-lo como merecia. Ao final, Tico me deu um disco de presente - cantando músicas em italiano. Pediu humilde uma resenha. Não precisava nem ser favorável. Queria apenas ver publicada num jornal local. Dizia que tinha com ele, guardadas, matérias e análises de seus trabalhos publicados em grandes jornais dos EUA e da Europa, Itália especialmente. Mas não escondia, dizia ele, certo constrangimento quando em ocasiões que precisava mostrar a repercussão de seu trabalho não aparecia sequer um jornal de sua terra. Não havia mágoa nem nada - só uma certa tristeza, revelada apenas e certamente, por causa das taças de vinho. Cheguei a pedir a alguns jornalistas especialistas em música - jornalistas e músicos há aos montes por aqui - que fizessem o texto, para dar a ele (o disco) a importância que eu, provavelmente, não conseguiria alcançar - eu achava que era importante o tal distanciamento crítico. Não consegui que fizessem. Agora que Tico da Costa se foi me sinto um pouco devedor. Fica comigo, depois que a besta fera aprontou mais essa, o imenso sabor de algo incompleto, de um compromisso a que faltei, de um tipo de justiça que poderia ter feito e fracassei. Mas Tico na sua grandeza e na sua humildade saberia entender. Esta é uma segunda-feira, enfim, com gosto de melancolia. Há um belo dia de sol, tanta gente na rua, mas há um sentimento de vazio e perda. Aí embaixo o link da entrevista que Roberto Homem fez com Tico da Costa - para ler e guardar. aqui
E aqui, vídeo de Tico com Phillip Glass.
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