
Nós nos deitamos e fumamos; e agora, sem palavras, nos entendemos perfeitamente, na eloqüência de um silêncio que não apenas contém tudo o que já foi e tudo o que um dia será dito, mas também inutiliza toda essa vasta babel, deixando somente a pureza etérea daquela poesia sem palavras que só os maiores poetas vislumbraram em epifanias. Tais epifanias parecem surgir na fumaça de cigarro que paira sobre mim. Shakespeare - "Aprendei a ler o que o silencioso amor escreveu" - entrelaçado com o grande testamento de Pound: "Tentei escrever o paraíso/ Não se mova / Deixe falar o vento / Esse é o paraíso". Aprender a ler o que o silencioso amor escreveu, curvar-se ao poder do vento. Isso é viver. Isso é saber que aquilo que pode ser dito ou escrito não é nada diante desse silêncio e desse poder. O mestre Cha' na Niu-t' ou Fa-Yung, mais de 1300 anos atrás: "Como podemos obter a verdade com palavras?"
(Do livro A ÚLTIMA CASA DE ÓPIO, de Nick Tosches)
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