Lembranças de um poeta beatnik Outro dia o encontrei. Fazia tempo que não o via. É que eu deixei as ruas. As ruas da noite que ainda correm dentro de mim, nos meus vasos sanguíneos, nas lembranças das ressacas nos vasos sanitários e outras associações de gosto duvidoso. Ainda sinto o gosto dos seus textos. Inéditos. E entregues a mim nas madrugadas, sem aviso, por acaso. Folhas amassadas, poemas beatiniks, palavras ligeiras, apressadas para o entorpecimento. Mas veio o esquecimento. Não sei mais onde estão os seus textos. Sei que ele não os publicou. Lembro a primeira vez que o vi. Cabelos grandes e soltos ao vento da cidade que também parecia solta, crescendo, mas ainda com aquela solidão de província. Aquela sensação interiorana que há tempo pra tudo, mas nada acontece. Ele somou na equação invisível para falar de um mundo não cartesiano, hetero-gênio e diverso como o mundo é. Pessoas assim fortalecem essa sensação de que podemos viver ainda em um mundo mais subjetivo que objetivo, sujeito a adjetivos para mim mais generosos, visíveis de outras formas, transcendendo a conceitos pré-estabelecidos, acendendo velas à meia luz, redescobrindo o Brasil mais com João Cabral que com o outro Cabral: "Deixa falar todas as coisas visíveis deixa falar a aparência das coisas que vivem no tempo deixa, suas vozes serão abafadas. A voz imensa que dorme no mistério sufocará a todas. Deixa, que tudo só frutificará na atmosfera sobrenatural da poesia." E assim ele é. Um amigo diferente. Imagem sobrenatural que me diz sem me dizer, só sendo, foge de mim e vem quando quer, como tem que ser. Carito |