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| 21.5.08 |
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Minha rua
Quando sinto falta das manhãs vou até minha antiga rua. Na rua da minha infância as manhãs estão bem guardadas e são para sempre. Há algo mágico no ar que vai mais além das novas casas agora comerciais ou das velhas casas residenciais agora reformadas com muros altos e grades.
Minha rua é ainda para mim sem grades e com a mangueira da casa de Dona Zefinha, o jambeiro da casa de Dona Geralda, a palmeira na casa de Seu Manel, a goiabeira na casa de Dona Sílvia, o pé de cajá-manga na casa de Seu Zé Lima. Todas essas árvores continuam lá, mesmo que algumas dessas árvores tenham sido cortadas. Os personagens continuam vivos. Mesmo os que já se foram.
Há um vento na minha rua que continua soprando do mesmo jeito. Levantando as folhas das árvores no chão. Há sombra na minha rua. Há o sol das manhãs. Há a siesta da tarde na quietude da rua escondida, oásis perdido por entre avenidas ao redor. Há a chuva nas bicas e gostosos banhos cinematográficos. Para mim a Rua Mossoró ao lado continua de terra e quando alaga ainda espero com meus irmãos e nossos amiguinhos os carros passarem para que criem ondas para nossas pranchas.
Estou louco que chegue julho quando entrarei de férias e poderei sentir melhor as manhãs. Meus pais irão viajar e receberei cartões postais. Eunice vai cuidar da gente. Vamos fazer cooper bem cedo com nosso avô na praia do Forte. Estou louco também que eu chegue logo na adolescência porque poderei ir a pé até a praia dos Artistas para ver a galera pegar onda. Milton Nascimento pode estar lá. É só estalar. E eu estou de novo na minha rua, esquina de tantas lembranças, pensamentos cheios de tanta luz. "Vale mais a força do pensamento". Continuo lá. Continuo indo para a casa de Délio pegar discos emprestados todos os dias e ler suas poesias. Luís Emílio continua tomando caldo de cana em cima do muro com sua namorada. Seu Zé Lima continua com seu admirável Simca Esplanada entrando na rua buzinando com as suas calças lá em cima.
Amanhã é feriado e vou passar o dia na minha rua adormecendo o tempo. Vou logo cedo, bem cedinho, para aproveitar a manhã, "pois na força da manhã posso ser muito valente, pra vencer o espaço e me achar"...
Carito |
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| por Os Poetas Elétricos [10:19] |
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| 19.5.08 |
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 O amor é lindo
É essa sensação que temos na comédia romântica LIVRANDO A CARA (SAVING FACE). Estou com preguiça de resumir o filme, então vou pegar carona nesse site que diz: Will (Michelle Krusiec) é filha de imigrantes chineses e trabalha como cirurgiã em Manhattan. Namorando às escondidas a bailarina Vivian (Lynn Chen), Will hesita em assumir o relacionamento diante de uma comunidade repleta de tradições. Em sua difícil jornada de auto-afirmação, irá se surpreender ao descobrir que não é única de sua família a ter de "livrar a cara" diante dos tabus milenares da cultura chinesa.
Essa preguiça gostosa que sinto agora é derivada da ótima sensação que tenho ao me lembrar de alguns momentos do filme embalado por uma boa trilha sonora. Então hoje quero apenas ressaltar essa boa química entre música e filme. Me revoltar contra a frase correta começando-a com um pronome, me revoltar contra a segunda-feira e não fazer nada, me deixando levar por essa química. Química simples e que funciona, pois mesmo nos momentos de possibilidades tristes do filme esse clima video-clip nos deixa leve, nos leva para um mundo de doce ilusão cheio de esperança - onde o amor vence preconceitos, a diversidade fica acima da adversidade, e a vida transcende a idade e as diferenças.
Destaco a canção Mar Azul de Francis Hime, interpretada por Rosalia de Souza. É muito estranha essa coisa da globalização tantas vezes nos mostrar gente do nosso país de fora pra dentro. Pode ser ignorância minha, mas eu nunca tinha ouvido falar em Rosalia de Souza. Fui pesquisar na net e o que descobri: nosso amigo natalense ex-Cantocalismo Robert Taufic (hoje radicado na Itália) faz parte de sua banda!!! Saiba mais sobre Rosalia aqui e no myspace.
Destaco ainda Love Is Strange interpretada por Leona Naess (escute a canção com Leona e saiba mais sobre ela). E a relação completa da trilha sonora do filme (que também traz Lou Reed numa versão do Cat Power) pode ser conferida aqui.
Hoje quero ser ingênuo, pensar que a vida é filme, e acreditar que a magia do amor embalado por uma boa música acaba resolvendo as coisas.
Carito |
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| por Os Poetas Elétricos [14:44] |
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| 16.5.08 |
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| Um amaralelo entre 02 filmes

Um amaralelo é um paralelo do amar junto ao mar. E os 02 filmes são: "Mar Adentro" e "O Violinista que Veio do Mar". Nem "O Violinista" é água com açúcar nem o "Mar Adentro" é água com cicuta. Se no "O Violinista" a busca da vida do protagonista quase morto no naufrágio tem o sentido de liberdade, o mesmo pode-se dizer no "Mar Adentro" - onde a busca da morte pelo protagonista quase vivo tem o sentido de libertação. São 02 filmes amarelos de luz e repletos de azul do mar, ainda que na tempestade. A tempestade que traz o violinista do mar. A tempestade que leva Ramón Sampedro mar adentro. Esse é o amararelo poético, por ético e polêmico entre 02 histórias: o violinista que veio do amar, e o amar adentro. É através desse amar adentro que podem pular para fora violinistas e outros peixes-homens-voadores nessa nossa vida tantas vezes tempestade em copo d'água de mar.
Carito
"HÁ BEM MAIS SÓIS RESTANDO ENTRE AS ESTRELAS". (Mestre Ambrósio)
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| por Os Poetas Elétricos [11:40] |
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| 15.5.08 |
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Rock de luto
Morreu Wander Taffo, guitarrista paulistano do bairro da Pompéia. Dono de uma técnica diferenciada, Wander Taffo foi guitarrista do Radio Táxi e de outras bandas como Joelho de Porco, Made in Brasil, Secos & Molhados, Gang 90... além de ter tocado com nomes como Rita Lee e Roberto de Carvalho, Marina Lima, Guilherme Arantes, Arnaldo Baptista e Cássia Eller. Desenvolveu um trabalho solo e também criou a Banda Taffo. Em 1990, Wander foi escolhido pela crítica como o melhor guitarrista do Brasil.
Na época do Modus Vivendi montamos 02 músicas do trabalho dele. No início dos anos 90, após uma apresentação do Modus na UFRN onde também tocamos Wander Taffo (durante um Encontro Nacional de Arquitetura em Natal), lembro que umas meninas de São Paulo, felizes e surpresas, vieram me perguntar junto ao palco sobre como nós conhecíamos seu trabalho solo, como conhecíamos o trabalho da Banda Taffo... Enfim, não havia internet e o trabalho solo de Wander Taffo ou da Banda Taffo era mais alternativo, mais ligado ao hard rock, menos popular que o Radio Taxi, e teoricamente menos conhecido fora do eixo Rio-Sampa. Uma das músicas era "Meu Punhal" (que no disco tem a participação de Lobão). Uma paulada! E agora, como muitos, Lobão comenta sobre essa outra paulada: "O rock and roll está chorando".
Carito
Guitarrista Wander Taffo, no início da carreira (1974) - FolhaOnLine |
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| por Os Poetas Elétricos [00:23] |
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| 13.5.08 |
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O terço das coisas
Minha mãe sempre diz uma frase: tal pessoa não sabe da missa um terço. Depois de um tempo matutei: será que não sabe da missa 1/3 ou o terço? Sei que todo homem tem seu terço. De coisas que não sabe. De coisas pra rezar.
Carito |
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| por Os Poetas Elétricos [11:10] |
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| 8.5.08 |
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Hoje é dia de antropofagia
Pra quem mora em Natal uma dica que é ripa na xulipa: o atemporal lobo Raul e sua Alcatéia Maldita realizam show hoje à noite no teatrinho da Fundação José Augusto, logo mais às 21 horas. A entrada é só 5 reais! Vale saltar e re-saltar: antes desse alvoroço em cima de misturar rock com isso e aquilo, Raul jazz misturava rock com tudo... antes de descobrirem a pólvora da mistura Raul já tinha explodido a mpb local desde os anos 70. Eu acho que Raul é ele mesmo, por si próprio, por sol próprio, e principalmente com lua própria... ou imprópria, que é uma palavra mais (in)apropriada. .. Mas pra quem precisa de referência externa para a reverência interna, eu cito Van Morrison, excito Mick Jagger e invoco as forças místicas do nordeste só para não dizer que não fiz o que todo mundo parece que tem que fazer nesses tempos pós-não sei o quê: respaldar Chico Antônio através de Mário de Andrade, etc. Mas chega de conversa mole, que o som é duro, embora não seja só pau, é pedra rolante e não é o fim do caminho: Raul traz clássicos autorais, mas também novidades, bons artigos e melhores preços, tal qual a antológica "Casas Cardoso Tecidos", embora ele não seja o centro da moda. Ainda bem!
Para saber mais:
http://www.nominuto .com/cultura/ raul_e_alcateia_ maldita_apresent a_show_de_ critica_a_ violencia/ 19533/
Eu recomendo!
Carito
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| por Os Poetas Elétricos [18:33] |
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| 6.5.08 |
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Chuva no sertão
Pra quem sabe ver-te Um pingo É verde.
Carito |
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| por Os Poetas Elétricos [22:21] |
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| 4.5.08 |
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| Música é cenário
Acabei de assistir ao filme Querida Wendy. Independente da polêmica em torno do filme (se o tiro de Thomas Vinterberg e Lars Von Trier saiu ou não pela culatra), sinto que seus criadores acertaram em cheio na trilha sonora composta praticamente pelo grupo (injustamente quase desconhecido) The Zombies. Clique e saque em 03 momentos a canção tema do filme: Time Of The Season no filme, num clip clássico, e numa versão ao vivo de Dave Matthews Band. E saiba mais sobre The Zombies - o grupo que lançou o ótimo Odessey And Oracle (o qual acabaria se tornando um disco independente antes desse termo ser inventado).
Quando fiz especialização em Ensino de Arte escrevi uma monografia sobre o Lugar Teatral. Mas não é preciso nenhuma tese acadêmica para entender que a música pode substituir o cenário. Em muitas peças teatrais isso acontece: um simples som de buzinas sugere o trânsito em uma cidade e por aí vai.
Tom Jobim dizia que a música deve ser melhor do que o silêncio. Deve ser por isso que mesmo quando sabemos que o silêncio se basta ainda insistimos em acrescentar um som extra. Tantas vezes somos seduzidos a desligar a música mecânica para escutar a música orgânica do mar, do vento ou do próprio silêncio. Mas também quantas vezes ficamos excitados em transformar aquele momento especial em um filme real com uma trilha sonora composta por nossas músicas favoritas.
Noutros momentos, ao conhecermos uma nova (mesmo quando velha) canção, somos estimulados a "compor" um cenário para "usá-la". Como quando compramos uma roupa nova. Agora mesmo quero gravar Time Of The Season num cd, botar no carro e sair zumbindo por aí...
Mas antes vou citar aqui outro momento cinematográfico que me trouxe boas recordações - a cena que eu vou falar me fez lembrar quando eu era adolescente e dublava Mick Jagger de frente para o espelho. Trata-se do ótimo filme C.R.A.Z.Y - no momento em que o protagonista faz um exercício de autoconhecimento imitando David Bowie ao som de Space Oddity. Clique aqui e boa viagem!
E fico devendo uma listinha minha (essas listas sempre são de 10 itens, né?) com alguns momentos de filmes onde a música se fez (ou fortaleceu) o cenário, e virou personagem tão importante quanto os protagonistas - como a trilha desoladora de Ry Cooder em Paris, Texas (veja aqui a seqüência de abertura do filme) ou a porrada de Chico Science e Nação Zumbi no coração do cangaço do Baile Perfumado (assista aqui).
Agora fecho os olhos e sinto que essa madrugada vai ser de road movies - com os Zombies, Bowie, Ry Cooder e Chico Science entrando no carro imaginário transformado meu quarto num cenário do tamanho do mundo...
Carito
 Cena de C.R.A.Z.Y
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| por Os Poetas Elétricos [01:45] |
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| 1.5.08 |
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Tudo por um fio
O percussionista Cacau Arcoverde tirou melodia de um fio nem sei de quê. O músico Anand Rao fez rock and Rao. Explico: Anand Rao teve atitude rock ao aceitar o convite do poeta Carlos Gurgel para a performance do desconhecido, o que já é uma marca de Anand - ele é conhecido no Brasil pela sede de improviso.
Conversando com Rao ele confirmou minhas impressões: dá um tom de estranheza atonal à fonte bebida em clubes de esquinas, com uso e abuso de estudos de harmonia a serviço do inusitado. Tão inusitado como o som do fio de Cacau Arcoverde, como os (des)caminhos da poesia de Gurgel que atalhavam e talhavam com os de Anand e Cacau. Tudo foi construído e desconstruído não por acaso e por acaso ao mesmo não-tempo. Não por acaso que essas forças estiveram juntas sob o título de TRIUMVIRADO. Por acaso as performances pareciam ir e vir, com a sensação de não sabermos onde termina uma e começa a outra, como nos velhos vinis progressivos-experimentais setentistas.
Provocar sensações, despertar sentimentos, talvez tenha sido isso mais que tudo no evento dessa noite. Mais que a pouca gente, mais que o sumiço do mesário que não voltou em tempo de corrigir uma falha técnica. Mais que a falha que pareceu performance para alguns. Tudo tão rápido, parece até que não aconteceu. Mas que nada. Mais que nada, com o ponto no i. Com o i fazendo ponto na esquina. Como medir o tempo de um espaço? De uma esquina intensa, diversa, mesmo quando e talvez por isso - adversa. 20 minutos? E o tempo que fica e não sai mais do nosso espaço interior?
Anand disse a Gurgel que se tivesse dado muita gente nesse evento experimental ele desconfiaria da qualidade de seu trabalho. Um clube sem saída, cuja entrada é o preço da contramão? Os a(s)tro-pêlos? Gurgel estrela em cio, Anand estrela em brio, Cacau estrela em fio... Tudo por um, e todos por um. Fio da navalha-me Deus! O corte está lançado! No céu da boca da noite: devora-me e eu nem te decifro...
Carito
 TRÊS EM UM VIRADO na Pizzaria Calígula Foto de Flávio Aquino
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| por Os Poetas Elétricos [13:35] |
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