Com uma fuga atrás da orelha No início do filme Mediterrâneo aparece uma frase: "nesses tempos difíceis, às vezes fugir é o melhor remédio". Meu plano de fuga de hoje inclui algumas frases feitas (num tal de abre asas e fecha aspas) e som em alto volume. Beto Guedes diz numa canção: "Encontrar o coração do planeta / E mandar parar / Pra dar um tempo de prestar atenção nas coisas". Assunto recorrido esse - do tempo mais corrido e menos rido. É preciso rir do tempo, rir com o tempo, cantar "time is on my side, yes it is". Ilusão que seja... E o que é a vida senão a procurar de SIMs? Sábado eu fui à comemoração do aniversário de um grande e velho amigo. O tempo parou de repente. E também voltou atrás. Sei que há um monte de teorias sobre o que é saudosismo, nostalgia, essas coisas. Mas sei também que a banda setentista paulista de rock Joelho de Porco um dia disse - "eu vou escrever no muro: hoje é o passado do futuro". Ontem um certo passado virou presente de novo, se reinventou. Hoje já é passado de ontem novamente. E o tal do futuro? A banda punk gaúcha oitentista cantava: "O futuro é vortex". Pois é. Na festa de Aldo Jr. houve um momento que uma parte da turma se juntou espontaneamente junto à fogueira do som. O som tem esse fogo, já que música é alma. Ficamos juntos do equipamento, como nos velhos tempos. Só que agora pilotando um iPod - um prato cheio de canções para nossas refeições musicais atemporais. Cada um, na sua vez, escolhendo sua(s) música(s), entre clássicos e clássicos do rock. Sem conversar. Nada contra o que a outra parte da turma fazia numa mesa que se afastou do barulho cada vez mais perto de nossas oiças. Não mais a música de fundo (que de fundo acaba sendo de findo). E sim nós de fundo para a música de profundo. Nada de novo. Antes já era assim: íamos para a casa um do outro só para escutar LPs, a tarde inteira, sem conversas, só audição. Para prestar atenção mesmo! Regressão é isso? Regredir é também avançar. Parar é também se movimentar. Parar para se cobrir de sonhos em movimento, no descobrir e redescobrir. Como Manuel de Barros em sua infância desbravando "o império do chão". Leminski já dizia: "distraídos venceremos". Clarice Lispector também já falou da importância de estarmos distraídos. E Chico Science cantou: "eu me organizando posso desorganizar". É importante nos distrairmos do mundo real, para a distração de um outro mundo menos organizado cartesianamente - também real, mas menos visível. Nessa perspectiva, o ponto em questão é um ponto de fuga. Uma fuga atrás da orelha. Uma fuga que é também um encontro. Um encontro sonoro que me inquieta: por que ele não acontece mais vezes? Então é isso: de vez em quando desplugar o cérebro da tomada do mundo corrido (por um tempo mais rido e menos ido), plugar o cérebro no som e... ...aumenta que isso aí é rock and roll!!! Carito |