25.7.07
LUTO LÚDICO NA ALDEIA POPTIGUAR

Escutando a voz melancólica da incrível Madeleine Peyroux, que viveu anos no anonimato por opção, cantando nas ruas de Paris, escrevo uma notícia triste, sobre um outro alguém também incrível que, nas palavras do presidente da Capitania das Artes de Natal, Dácio Galvão, era um "recluso consciente". Estou falando da morte de JAIME LÚCIO: grande perda para o teatro, TV, cinema e música potiguar.

Tive a oportunidade de conviver um pouco com a intrépida trupe do Gato Lúdico, grupo performático no qual Jaime fez parte nos anos 80, entre outros importantes e pioneiros trabalhos no RN. Para mim, recém chegado no fazer artístico naqueles anos e também nos bastidores desse instigante mundo cultural, sinto como se o poema que escrevi no post anterior veio iluminar essa homenagem que faço agora ao espírito lúdico de Jaime e dessa galera que tanto me influenciou dentro e fora do palco. Ah! Como eu gostava de cantar (numa época sem estúdio, rádio ou cd) os sucessos do Gato Lúdico que ficavam gravados na mente e na boemia: "ê ê ô ê ê ô baby beatnik chegou"! Na verdade, continuo gostando de cantar na minha mente essas lúdicas & incríveis canções atemporais...

Chegue aí em cima em paz, rapaz, num pulo de gato lúdico!


Carito

JAIME LÚCIO (ARQUIVO / DN)
www.dnonline.com.br
por Os Poetas Elétricos [10:33]
21.7.07
BOEMIA

a noite
escorrega
dia

Carito
por Os Poetas Elétricos [00:01]
17.7.07
O Filme que nunca vi...

Não sei bem qual era a minha idade. Penso que uns 9 anos. Fui ao cinema ver "Horizonte Perdido". Ou melhor (para não dizer "ou pior") fui NÃO ver "Horizonte Perdido"!

O vazio se instalou em mim logo no início do filme e eu não consegui assisti-lo - eu simplesmente não conseguia olhar para a tela e só sentia algo muito estranho e ruim dentro de mim, escondido naquela sala escura. Vez por outra meu olhar pescava quase sem querer alguma imagem. Vez por outra, já não sei se quase sem querer, alguma imagem me pescava. Eu já era apaixonado inconscientemente pelos vazios férteis, mas aquele foi um imenso vazio não fértil. Na seqüência da minha vida, talvez eu possa comparar o que senti naquela idade e naquele momento com o que depois poderia ser chamado de depressão, tédio, ressaca existencial, rebordosa, mania, superstição, crise...

Mas não demorou muito para me levarem ao psiquiatra ou algo do tipo. Não exatamente por causa do filme, ou do não-filme. Talvez até eu já tivesse ido ao psicanalista antes do filme, por causa de outra coisa estranha linkada a essa: o que talvez hoje possa ser chamado de TOC (transtorno obsessivo compulsivo). Tipo aquela história daquele filme engraçado com Jack Nicholson: "Melhor é impossível". Mas para mim não foi nada engraçado... e pior impossível!

Walt Whitman já dizia: "nada é maior ou menor que um toque". Sei que foi (e ainda é) preciso muito toque poético para entender esse outro TOC.

Sei que talvez não tenha sido necessário eu ver o filme para saber desde aquela época que muitas vezes estamos com nosso horizonte perdido, com ou sem razão de ser, de estar...

Sempre me senti atraído por coisas como Shangri-lá, a Terra do Nunca... mas nunca tinha tido coragem de ir lá na minha mente exorcizar essa contradição do filme sobre o paraíso que se tornou um inferno para mim... Ainda mais tanto e assim, aqui, público, num blog onde até pouco tempo eu nem sabia bem o que escrever, já que nosso trio poético-musical é experimental até na sazonalidade... Mas tendo coragem de pesquisar na net sobre o filme que para mim foi uma verdadeira luta existencial, li uma fina ironia do tempo:

"Nunca sonharam com um lugar onde haveria paz e segurança, onde viver não seria uma luta mas um eterno deleite?"

O que será que o tempo quer que eu aceite?


Carito
por Os Poetas Elétricos [15:18]
7.7.07
A MALA SEM CABEÇA

Ele não estava com cabeça para viajar e por isso colocou só o corpo dentro da mala e deixou a cabeça de fora. A cabeça de fora falou para o corpo dentro da mala: vou ficar por aqui controlando as coisas à distância.

Enquanto a viagem foi feita de corpo e mala, a cabeça ficou fazendo sala, para ela mesma, em cima da mesa de centro. Foi quando refletiu: nunca tinha reparado nesse quadro de Magritte "Isso não é um cachimbo". E sozinha, sem ter o que fazer, começou a gritar: "Isso não é um cachimbo, isso não é um cachimbo".

Então lhe disse o quadro de Magritte: não me grite! Já escutei. Não sou surdo!

A Cabeça falou: Você fala? Mas você é só um cachimbo!



- Claro que não! Você mesma leu que eu não sou um cachimbo. Sou um quadro. A representação de um cachimbo na pintura, sacou? Se não, vem cá fumar um pouco! Você precisa experimentar isso aqui!

- Mas como? Não posso chegar até aí. Estou de braços e mãos atadas... Ou melhor, separadas de mim... Ah! Pernas... pra que te quero!

- Tudo bem! Deixa comigo!

E de repente o cachimbo saiu do quadro nas mãos que apareceram atrás da tela, saltitantes, do Saci Pererê, que foi até a cabeça e lhe disse:

- Olha, você tem que fazer alguma coisa. Sua mala já chegou lá pela floresta. E está despertando a maior curiosidade. A curupira tá uma fera, soltando fumaça por todos os lados, dizendo que a mala quer roubar nossa cena. Daqui a pouco vai querer também virar lenda: "a mala sem cabeça". Você tem que trazer a mala de volta. Ela é a maior mala.

Então ele fez uma mala direta e a mala voltou pra casa. Chegando lá, ele perguntou para a mala:

- Como foi que você deixou isso acontecer?
- É que o pessoal ficou me chamando de mala sem alça, e aí... Você sabe. Perdi a cabeça!
- E agora? Que vamos fazer?
- Sei lá... Você é que é o cabeça daqui! E uma cabeça existencialista...
- Então poderíamos fazer como Sartre e Simone de Beauvoir e viver separados.
- Eles viveram separados, mas o corpo e a cabeça de cada um viveram juntos.
- É verdade. Mas ainda acho que é uma boa idéia.
- Você é mesmo uma cabeça dura! Disse o corpo para a cabeça. E nisso, a cabeça começou a pular nervosa e caiu da mesa e foi saltitando até o corpo que estava na mala aberta. Agora foi a vez da mala falar:
- Ah! Se eu não fosse uma mala aberta, vocês nunca iriam se encontrar do novo.

O quadro de Magritte observando tudo refletiu: esse pessoal de hoje não pode nem fumar um pouquinho para viajar e já perde a cabeça!


Carito
por Os Poetas Elétricos [22:58]
5.7.07
De PARIS,TEXAS a PARIS HILTON

Há mais de 20 anos foi lançado um filme que se tornou célebre: o cult-movie "Paris,Texas" do cineasta alemão Win Wenders.

Recentemente o amigo filósofo Don Pablo Capistrano postou lá no seu blog http://www.pablocapistrano.com.br/ e no blog http://www.disruptores.com.br/ um texto sobre "O mundo Paris Hilton". No blog Disruptores teve gente que nem aceitou o nome dessa celebridade por lá, pois o nome da moça estava indo na contramão do espírito outsider do blog, assim entendi eu. Entendi também que essa recente história da prisão de Paris Hilton provocou literalmente uma reação em cadeia.

Essa história de contramão e essa história de cadeia alimentar é antiga.

Na contramão da história muita coisa já rolou, ao ponto de eu pensar que a contramão é a mão. Parece até que a contramão foi contramão e ao mesmo tempo deu uma mão a muita gente: Che, Gerônimo, Lampião, o dragão... um povo nada santo, essencial para a heterogenialidade da humanidade. Mas como fica São Jorge e outros santos? No anônimo mato? Como diria outro Jorge: mas que nada! Ninguém quer nadar e morrer na praia. Até pouco tempo, a ditadura sentava a lenha aqui embaixo da linha do equador e o mundo era fogo... e cartesiano - você era santo ou pecador, pôrra louca ou militar, TV Cultura ou Rede Globo, direita ou esquerda, enquadrado ou contra o sistema, vivo ou morto... Mas na fogueira das idades, Elvis não morreu, Che não morreu - ganharam o mundo e continuaram pegando fogo em camisetas, adesivos... Então ninguém morreu! Os mortos contra o sistema estão mais vivos que nunca nesse novo sistema e os vivos precisam morrer um pouco a cada dia para renasceram das cinzas dos momentos de anonimato nas capas de revistas - precisam morrer na mão daqueles que estão pouco ligando para quem está na contramão. Andy Warroll já tinha profetizado os 15 minutos de fama de cada um. Antes a onda do momento na praia era para surfista pegar tubo, agora é para paparazzy pegar Youtube.

É um tempo confuso, assim como eu estou: estou pensando, caro leitor, cara leitora, que os mundos Paris,Texas e Paris Hilton devem ter mais relação entre si do que essa nossa divã filosofia possa imaginar!

O exercício físico oxigena a mente, por sua vez o exercício mental deixa o cérebro oxigênio! Eu prefiro esses verdadeiros oxi-gênios da arte: Glauber, Orsan Wells, Win Wenders, Oswald de Andrade... Principalmente os estro-gênios ou astro-gênios, verdadeiras estrelas, constelações: Pagu, Luz Del Fuego, Leila Diniz... um mundo que muito mais me diz! Prefiro o oxigênio de Paris,Texas - tudo vale a cena se a alma é de cinema. "A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte". Mas, nessa cadeia alimentar, meu avô sempre dizia que quando a cabeça de baixo endurece a de cima enlouquece, e por isso se desgosto não se discurte e o resumo é de cada rum, nesse zum-zum-zum, em torno de Paris Hilton: a moça já foi presa por dirigir bêbada, já foi solta, e agora quer ajudar a fazer um mundo melhor (segundo notícia lida nos blogs citados bastante excitados). Ela ainda tem algum tempo pra isso: no mundo Paris Hilton o corpo fálico ainda joga um bolão por mais algum tempo (e atire o primeiro silicone quem não tiver nada de clone)... Mas depois que vira fálhico... bem, nem nos 15 minutos de Andy nem na prorrogação... não tem mais jogo mesmo!

Talvez uma galera da contramão sem saber se ia rolar depois uma mão, resolveu congelar os 15 minutos de Andy Warrol e ficar eternamente jovem, se libertando de vez da cadeia do mundo Paris Hilton... Será que foi assim? Com Janis, Jimmy, Jim...

Resta o mundo Paris,Texas para a consolação da desolação... E o filme não mostrou, mas lá na frente da estrada deserta, o solitário Travis se acerta... com uma moça loura que não era Nastassja Kinski... no cruzamento dos universos paralelos, ela dirigiu seu carro na contramão de Travis e embriagou o seu coração, lhe dando uma mãozinha... fazendo o mundo de Travis melhor... e muito mais gostosa! Quero dizer: e muito mais gostoso!

Carito

por Os Poetas Elétricos [22:10]
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