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| 28.4.07 |
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Entre a Bósnia e a Patagônia
Madrugada tomada de assalto! A TV inicialmente ligada apenas para compor o fundo sonoro para o sono acabou me levando para uma viagem ao fundo da mente! Uma madrugada, duas... Dois filmes que foram aparecendo nas duas últimas madrugadas, na tela da TV Futura e na TV por assinatura... e dando sua assinatura: Emir Kusturika e Francisco D'Intino. Diretores intensos rolam além de Hollywood...
No primeiro filme (TEMPO DOS CIGANOS / Dom za vesanje, 1988), a fragilidade da fronteira entre o bem e o mal. Decididamente o mundo não é cartesiano, não está num eixo x e num eixo y. É o mundo fora dos eixos que é o verdadeiro mundo, maior, mais diverso, de verso nem sempre em prosa meiga. Mas o diretor bósnio Emir Kusturika sabe ser duro e meigo. E sabe conseguir de nós um sorriso franco, um olhar de carinho, mesmo nas cenas mais punks desse sofrido caminho. Eu não Yuguslavo minhas mãos. Não há como ficar insensível a uma doença que não Sarajevo, num mundo de exclusão, num mundo que não nos Sérvio... O mundo é cigano. E num filme de quase desesperança, ainda sentimos poesia no caos. Há cais também no caos!
No segundo filme, literalmente há esperança. Literalmente e litoralmente - como gosto sempre de brincar. Falo do filme argentino ESPERANÇA (La Esperanza, 2004, direção de Francisco D'Intino), que se passa com vista para o mar patagônico e o amar agônico. Não é um filme para brincadeiras, mas o lúdico pescador Toto está ali para representar a super-diversidade humana em uma película de grandes panorâmicas e tão poucos personagens. No entanto, personagens extremamente fortes e diversos como o lugar incomum. A paisagem diferente da Patagônia... Diferente para quem cara-pálida? Existe padrão de destino? Uma espécie de "Em busca do tempo perdido" latino?
O mundo é incomum. O comum é o incomum. Há bem mais vilarejos diferentes do que as quase iguais capitais, há bem mais união do que pensamos, há bem mais lugares desconhecidos do que os tantos famosos como os Estados Unidos tantas vezes desunidos... Como diz o grupo Mestre Ambrósio: "há bem mais sóis restando entre as estrelas".
Para as pessoas desses lugares "tão perto e tão longe", os atores desconhecidos internacionalmente são grandes atores, grandes heróis nacionais. São grandes mesmo, em todos os sentidos... Principalmente quando nos deixam sem sentidos diante de suas sensíveis interpretações...
Sei que posso dizer com orgulho e eletricidade para essas pessoas, sem medo de ser feliz, indo além dos planos aritméticos: eu faço parte dOs Poetas Elétricos!
Carito DIA NACIONAL DA CAATINGA Abril chuvas mil quase diz: maio!
P.S: ESSE preTEXTO É DEDICADO A RENATA - CONHECI ESSA BELA "USUÁRIA" D'OS POETAS ELÉTRICOS E AMANTE DA SÉTIMA ARTE NOS SETS NATURAIS DA PONTA DO MEL...
http://cine7.blogspot.com/2005/08/tempo-dos-ciganos.html http://pt.wikipedia.org/wiki/Emir_Kusturica http://tapornumporco.blogspot.com/2005_07_03_archive.html http://www.rvj.pt/ensino/2004/dez2004/cultura.html
http://www.comohacercine.com/articulo.php?id_art=1241&id_cat=3 http://www.futura.org.br
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| por Os Poetas Elétricos [19:32] |
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| 20.4.07 |
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Perdidos na Capital Espacial
Imagino que tem gente por aqui que nem sabe que Natal é chamada de "Capital Espacial do Brasil". Já foi "Nova Amsterdã", já foi "Trampolim da Vitória"... E só não digo que é a cidade do "já foi" porque os mossoroenses em fina ironia já se anteciparam e vez por outra dizem isso de Mossoró - e sinto que dizem isso mais para cutucar alguma inércia da capital do oeste potiguar do que para criticar simplesmente (como acontece muito em Natal).
Pois bem, nesse currículo de tantos "já foi", sinto que deixamos passar muitas vezes coisas interessantes que poderíamos ter ganhado com esses momentos de colonização específicos. Sei que esse não é um texto que gente mais purista iria gostar, como o grande escritor Ariano Suassuna, se por um acaso do destino ele tivesse acesso a esse pobre artigo desse humilde escriba. De qualquer forma, acho difícil alguém como Ariano entrar em um site de devaneios poéticos com influência de cultura rock, com todo o respeito aos Poetas Elétricos (de quem faço parte com muito orgulho e prazer). Então acho que posso escrever minhas besteiras à vontade, sem medo de ser linchado pelos intelectuais engajados - é quando os pobres mortais estão protegidos ironicamente pelos próprios preconceitos dos imortais.
Não vou fazer apologia a coisas ilícitas, mas me intriga o fato de termos sido a "Nova Amsterdã" e a velha caretice ainda imperar por aqui. E toda vez que a galera que se considera descolada quer ficar um pouco mais colada com as novidades dos paraísos artificiais tem que viajar para a velha Amsterdã. Por aqui se continua correndo o alto risco de ser preso com um baseadinho fuleira e contentando-se com excursões para raves duvidosas no Pernambuco de Ariano.
Do legado de termos sido "Trampolim da Vitória", sei pelos mais velhos que herdamos dos norte-americanos o chiclete, a calça jeans, as meninas se liberando mais cedo, até o "for all" transformado em forró, e principalmente o rock'n'roll. Ainda assim, por culpa da desunião dos músicos ou da indiferença do grande público local nada de muito concreto se lançou por aqui nesse sentido.
Perdão. Em relação ao item anterior sobre algo de mais concreto ter sido lançado, não podemos esquecer da poesia concreta em todo esse processo. Digo: em todo esse poema processo. E por falar em se lançar, lanço aqui minha terceira e psicodélica indignação, essa proveniente do título concreto de "Capital Espacial do Brasil". Para uma capital espacial era de se esperar que os jovens tivessem aspiração a entrar no espaço. Crianças querendo ser astronautas, jovens estudando para entrar na Nasa, os ricos da cidade excursionando pelo espaço em vez de viagens a Miami, bandas de garagem abandonando o emocore por um som mais espacial, psicodélico. Era de se esperar que popular aqui fosse Kraftwerk, Pink Floyd, Air, Arnaldo Baptista em lugar de Amado Batista, Sigur-Ros em lugar de Calcinha Preta... Por sinal, imagino que calcinha aqui só se fosse prata reluzente! Para uma capital espacial era de se esperar que a local, desconhecida e quase-banda de Zé Marcos (O Portal Estelar) tivesse decolado.
Talvez até alguém mais conservador considere o fato desse aparente fracasso da cena moderna musical local ter sido na verdade um sucesso - pois apesar da liberdade de expressão, não é preciso ser terrorista para saber da parte disso tudo que representa para muitos um incerto lixo ocidental. No entanto, no lado mais conservador da coisa, ela também parece não acender. Apesar de termos nosso próprio Ariano (Luís da Câmara Cascudo), de termos nossa própria Pedra do Reino (o sal, por exemplo), não criamos nenhum movimento Armorial nem tivemos sucesso tentando imitar o mangue beat. Estamos naturalmente antenados com a globalização e com o turismo internacional, pois temos nosso próprio Texas petrolífero, nosso próprio Saara de dunas, nosso próprio Caribe, nosso próprio Grand Canyon... e uma cultura de raiz nordestina invejável. Mas nosso folclore virou parafolclórico, e o nosso turismo: sexual. E a única música própria constante, que tem continuidade, o vento soprando, a brisa do mar, estão calando - com a construção indiscriminada de edifícios. É difícil mesmo!
Ainda assim, eu e mais alguns poucos-muitos, continuamos tentando fazer a reciclagem do lixo cultural, pois como dizia Cazuza: "sobras e restos me interessam"...
Carito
UNIR-VERSOS PARALELOS:
Viajando em outras frequências nas guitarras-espaçonaves de
Adriano Azambuja

e Edu Gomez
CAPITÃES ESPACIAIS!
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| por Os Poetas Elétricos [14:13] |
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| 11.4.07 |
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BILLY E CONCEIÇÃO
BILLY - Não! CONCEIÇÃO - Não suporto mais essa braguilha fechada Pela met ade BILLY - arde Como tudo que sinto... Eu como tudo o que sinto... nhac, nhac... teu corpo meu corpo mordido pelo cupido que nos abandonou... nhac, nhac... CONCEIÇÃO - Então bote pra fora o que sente! Que discutir a não relação? Qual foi nossa última digestão? BILLY - Esse toque não conta não? CONCEIÇÃO - Sei lá, será que isso é normal, será que a gente é normal? BILLY - Dizem que é assim mesmo... CONCEIÇÃO - Pra cima de mim? BILLY - Sim! Pra cima de ti, pra cima de mim! Dizem que é assim mesmo pra cima de mim... Vem! Vem contrariar as estatísticas, as aerodinâmicas, e que se foda o mundo! E nós também, claro, meu amor!
CONCEIÇÃO - Faz escuro esse meu sonho! Mas não acenda a luz, não me acorde, mesmo se grito, rito, é só rito, vem cá... rito... Escreva aí... Dizem que assim que nascem...
 os... blues...
Carito |
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| por Os Poetas Elétricos [23:34] |
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| 4.4.07 |
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O escrivão Na cidade só havia ele de escrivão. Para tudo. Para escrever as coisas da delegacia, as histórias dos julgamentos, do cartório... Até para os livros ele era chamado - livros de tudo: de poesia, das leis, das escrituras, da funerária, do plano diretor da cidade, de tudo mesmo. Até para os bil(h)etes de trem e de amor entre os casais enamorados. Na verdade, só ele na cidade sabia escrever.
Um dia o escrivão morreu. A cidade chorou. E rapidamente a cidade ficou inundada, cheia de lágrimas e de expectativa em relação ao novo escrivão que vinha de fora.
O novo escrivão chegou de barco na cidade alagada que ainda chorava muito. O novo escrivão fez logo uma revelação. Uma revelação que puxou outra revelação. O novo escrivão descobriu que o velho escrivão, como todos na cidade, também não sabia escrever. Ele fazia garranchos miúdos que mais pareciam um idioma cifrado, uma espécie de dialeto. Mas eram desenhos mesmo. Pequeninos desenhos como nas cavernas pré-históricas. E o novo escrivão descobriu o que também devia ser obvio: a cidade também não sabia ler, e por isso nunca descobriu a farsa do velho escrivão. Para investigar melhor a fraude, o novo escrivão levou os rabiscos do velho escrivão para uma copiadora e tirou xeroxs ampliadas dos escritos falsificados. As ampliações revelaram cenas do cotidiano da cidade: namoros, casamentos, batizados... Só não revelaram crime, pois nunca havia acontecido nenhum ali.
A cidade inteira se encantou com os desenhos e sentiu ainda mais saudades do velho escrivão e todos choraram ainda mais. Mas o novo escrivão se irritou muito com tudo isso e a primeira providência que tomou foi escrever uma carta de repúdio à memória do velho escrivão que a cidade insistia em cultuar. Ninguém da cidade entendeu essa carta, já que todos não sabiam ler - ou pelo menos não sabiam ler o idioma do novo escrivão. Dizem que essa carta escrita assim nunca foi encontrada. Assim também como o novo escrivão que se afogou nas lágrimas da cidade. Dizem que a cidade também se afogou junto - todos ficaram cada vez mais cheios de lágrimas e de uma nova expectativa em encontrar o velho amigo escrivão em uma outra dimensão. Foi assim que essa história também quase desapareceu.
Mas os desenhos resistiram à chuva de lágrimas, as quais estranhamente pareciam introduzir nos papéis uma espécie de verniz resistente ao tempo. Hoje os desenhos se encontram nas árvores de uma floresta próxima. Os desenhos fizeram regressão e os papéis voltaram a ser árvores fazendo sombra para todos que, de alguma forma, ainda passam - e às vezes ficam - por essa história.
Carito |
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| por Os Poetas Elétricos [16:04] |
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