22.12.06
UMA RABIADA DIFERENTE, UM CARTÃO DE NATAL DIFERENTE E UM FELIZ ANUM NOVO!

Escuto uma rabiada. Rabiada é um cavalo de pau. Um cavalo de pau é o que o carro faz quando faz uma curva bruscamente. Uma rabiada tem som. Canta pneu. Mas quem eu vejo dar uma rabiada, quem eu escuto cantar pneu é um pássaro. Um passarinho que em vez de cantar sons de pássaros canta sons de rabiadas. É o anum branco. Que tem um rabo grande. E talvez por isso goste de dar rabiada. Ele dá uma rabiada no ar e olha para mim, sorrindo, fazendo bico. Logo em seguida vem sua mãe. Eu penso que ela vai brigar com ele. Mas ela também dá uma rabiada no ar e olha para mim. De repente vem o pai, os irmãos, amigos pássaros todos dando rabiadas no ar como num grande balé, como uma acrobacia no picadeiro das nuvens, a esquadrilha da fumaça sem fumaça. O céu está limpo, o céu está lindo! De repente todos os anuns dizem uns aos outros:

Feliz Anum Novo!

E nascem novos anuns, todos despidos de brancos, para a festa de Natal e entrada de ano. De repente eles soltam alguma coisa: é a minha imaginação! Que estava com eles por esses dias. Muito bem guardada. Mas agora é hora de soltá-la junto com os anuns novos, com o espírito de Natal. Os anuns cantam parabéns para Jesus. Jesus brinca e também dá uma rabiada no ar...

Um anum novo solta mais uma coisa: é um livro que vem caindo do céu e chega às minhas mãos de presente de Natal. É um livro do poeta Arthur Rimbaud. Um anum velho vai se afastando. Mas ainda assim sempre o vejo com os anuns novos. Todos juntos dando rabiadas, fazendo bico, cantando poesia em francês. Poesia de Rimbaud nos pássaros em rabiadas sobre o mar:

"FOI ENFIM ACHADA.
QUÊ? A ETERNIDADE.
É O MAR
AO SOL."

Nunca gostei de rabiadas. Sempre achei coisa de mauricinho metido a playboy, irresponsável. Mas essa é uma rabiada diferente, um cartão de Natal diferente!

FELIZ ANUM NOVO PARA TODOS!

Carito



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por Os Poetas Elétricos [10:26]
11.12.06
O Vento Científico

Aqueles pescadores trouxeram em sua rede novas palavras. Antes da rede chegar à beira da praia, ainda no mar, as palavras pularam, tentando escapar da rede. Mas aqueles pescadores levantaram a rede com paus impedindo a fuga das palavras.

Aqueles homens à beira da praia contrataram aqueles pescadores para pescar novas palavras. As palavras eram novas para aqueles homens sofisticados, honrados, acadêmicos. Mas eram palavras já antigas para todos aqueles pescadores e para toda aquela gente ali. A gente veio ver o evento. - O Vento Científico! Dizia toda a gente orgulhosa daqueles homens chiques de chapéu e terno de puro linho branco. Todos em pé, aguardando à beira da praia.

E chegaram as novas palavras: bote, arrastão, fateixa, lampejo, lampião, querosene, galo do alto, parracho, botar boneco, taipa, arretado, tome tenência, murrinha, avexado, vixe maria, broa, brote seco e maré cheia. As novas palavras pulavam muito, se debatiam, queriam voltar ao mar.

Entre as novas, velhas palavras pareciam mortas: política, ética, educação, dignidade e até vida!

Mas elas só precisavam de um pouco mais de vida. Depois que todos fizeram respiração boca a boca com as velhas palavras, elas ganharam vida nova e também começaram a pular na areia.

De repente, todas aquelas palavras se misturaram e começaram a pular cada vez mais alto e se transformaram em nuvens. E cada um imaginava o que queria em cada nuvem. Nuvem-palavra! Começou a chover. Uma chuva de hai-cais. As frases caíam de 03 em 03. E os pescadores gritavam: - Olhem! É a estrutura do hai-cai!

Aqueles homens puros de puro terno de linho branco ficaram impressionados com a sabedoria daqueles pescadores que conheciam o hai-cai, a metalinguagem, o pluralismo, o hipertexto, a semiótica.

- Ah! São palavras antigas pra gente! Explicaram os pescadores. - Não tem mais graça!

Graça era uma moça muito bonita, professora da capital, que ensinou muita palavra nova para aqueles pescadores. Eles gostavam de aprender. Mas um dia Graça foi embora. Não tem mais Graça. Graça foi embora, entediada das palavras silêncio, calma, sol nascente e sol poente, noite alta e céu risonho. Sentiu a palavra ausência e foi embora com a palavra veloz-cidade. E os pescadores e toda aquela gente ficaram a ver navios.

Navios eram palavras que passavam vagarosamente no oceano, na linha do horizonte.

Maria Doida era doida para ir embora com uma palavra daquela. Tinha uma doença sem tradução chamada saudade. Saudade de Graça, sua amiga que partiu. Que partiu seu coração! Maria Doida não sabia que palavra sentia por Graça. Antes de saber que palavra sentia aprendeu uma palavra triste chamada preconceito. E era justamente dessa palavra que aqueles senhores puros de puro terno de linho branco estavam fugindo. Por isso foram pescar novas palavras. Apesar de eles terem sentido aquela pesca de palavras como uma pesca predatória (porque algumas pequenas palavras podiam morrer na praia), eles sentiram que elas estavam mais vivas que em seus livros.

Ao perceberem isso, começou a ventar forte. Era o chamado Vento Científico!

Palavras se espalharam no céu e se desmancharam em sílabas, letras, riscos, iscos, scos, cos, os, s ,


Carito

O Vento Científico na Praia dos Morros, em Alagoas, início dos anos 90 (Foto: Carito)
por Os Poetas Elétricos [00:54]
3.12.06
A um lápis da eternidade!
(Somente para não perder a idéia)

Eis que desperto na madrugada, inquieto, com uma idéia na cabeça e o dedo sonâmbulo à caça de uma recompensa no computador: um poema, anotação de uma idéia, o que for! Tudo em nome da prosa! Já vi esse filme antes. Alguns novos personagens entraram: juntaram-se ao papel e à caneta, o teclado e o monitor. Juntou-se ao livro que ins e transpira, o oceano internético - vespúcio de um novo mundo. Mas o vaso sanitário é o mesmo assento circunspeto sob meu pensamento enquanto leio revistas e penso no banheiro, quando estou mais inteiro. E partido, para o mundo, lendo Whitman, percebo que não adiantou eu ter guardado idéias que aos 20 anos eu pensava-as como geniais, únicas, tesouro da juventude.

Sinto que isso tem que ser pirateado, pilhado, espalhado. Garrafas soltas no oceano, livro, show, blog, diário de adolescente tardio, o importante é sentir sempre o arrepio... A fisgada, o flerte, os pés balançando enquanto a cabeça balalaica a rolling stone... Não perder o triz da história, a poesia de repente, de repente a poesia: a fé, o café, expresso, oriente, o bonde, o chamado, o desejo... Vamos comer poesia? O último rango em Paris! O último rango nem que seja na puta que Paris... São apenas idéias engarrafadas... Vamos nos embriagar de Baudelaire que aRimbaud a festa? Penso em colocar mais um trocadilho aqui, mas Moisés Santana já usou "Terra em Trânsito", as antenas de Antunes já captaram o Arnaldo disso e daquilo... Então vamos tomar o Chacal das cinco no "Comício de Tudo"? Ou navegar nesse Itamar que tá pra peixe... Ou dirigir pelas estradas encantadas de Leminski... Porque Leminski se trafega, se esfrega... Um gênio! Da lâmpada maravilhosa, da lâmpada da idéia, da idéia da criação... Da lapada da idéia, a idéia tomada de uma lapada só, feito cachaça, pra gente achar graça... E que adianta eu ficar pensando: por que não pensei dissonantes? Por que não pensei dissonantes? Por que não pensei dissonantes?

Incompreensível para as massas? Spaghetti no satisfaction! Eu também curto Kobain... E quem bebe grapete, repete! Já bebi dessa fonte antes... Essa escrita doida, sem pé só cabeça, é o meu velho choro novo... Estou em trabalho de parto! O texto nasceu! Não sei o que ele vai ser quando crescer... Ele já nasceu grandinho... Espero que ele não puxe ao pai (falo desse aqui de baixo, e não o lá de cima) achando que pode ser eterno. Como diria Leminski: "abrindo um antigo caderno / foi que eu descobri / antigamente eu era eterno"...

Mas isso aqui é só um pretexto que já virou texto, uma idéia anotada para não ser perdida, uma idéia passada para não ser sozinha... É apenas uma idéia minha, agora sua, da rua... Apenas uma idéia cheia de reticências... É apenas uma idéia rolando, but i like it... Yes, i do...

Carito
por Os Poetas Elétricos [16:08]
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A Sina de Ina
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O Aniversário de Gni
 
Assista aqui o video vencedor do Curta Natal 2006
"PALARVEANDO" do diretor Mário Ivo Cavalcanti

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