23.3.06

VOZES DA PARAÍBA

Estava no ap em Natal, sentado no trono, lendo como de costume, quando escutei vozes. Parecia a voz de Clotilde Tavares. Tentei aproximar o corpo da janela alta do banheiro, mas a outra necessidade me impedia. Tentei desviar o barulho dos carros que passavam na avenida lá embaixo. Entre um silêncio e outro, entrava e cortava a voz. Clotilde? Pensei: Clotilde deve estar em algum desses prédios vizinhos, no apartamento de alguém, contando uma boa história, proseando bem como ela sabe fazer de melhor. Ou será que essas vozes estão vindo da Paraíba, onde ela agora sempre voltou a estar? Também tive que agüentar um pouco mais a pressão no meu nariz. Adiei por um momento a solução paliativa para a sinusite, pois a mesma também estava causando barulho e atrapalhando a minha percepção auditiva. Até que a voz desapareceu! Levantei-me rapidamente em tempo de voltar sem fazer nenhum estrago na sala. Com um livro de Clotilde na mão retornei ao trono e continuei a ouvir as vozes.


Carito

Ilustração de Flávio Freitas

por Os Poetas Elétricos [21:59]
21.3.06

A GUITARRA É A LEI!

Sou suspeito para falar, mas não para ouvir: o trabalho instrumental do meu parceiro Edu Gómez vem da tradição de um reino onde a guitarra era a lei! Ao mesmo tempo Edu não guarda a sua vanguarda e nos presenteia um "rock fusion" coroado pelo público e pela crítica: seu cd MOTRIZ foi indicado ao Prêmio Claro de Música Instrumental e aplaudido de norte a sul do país. Um dos ganhadores do Projeto Cosern Musical em Natal, seu show OS QUATRO ELEMENTOS está em cartaz durante esse mês de março, na Casa de Ribeira, todas as quartas, às 21 horas. Para quem não mora em Natal ou não pode ir aos shows, vale a pena conferir o cd, onde a guitarra reina com muita sensibilidade e criatividade. Compre pelo site do selo Mudernage Diskos http://www.mudernage.com.br/

É um trabalho autoral, denso, forte, lírico e épico. Para quem gosta de rock instrumental, e principalmente para quem gosta de boa música, feita com dedicação, talento, competência e paixão. Independente de modismos e sem preocupações mercadológicas e comerciais.

Uma banda afiada, uma pedrada lapidada, um som redondo. O cavaleiro da guitarra redonda!

E Edu continua reinando, a bordo de um novo disco voador: paralelamente aos shows está gravando o seu segundo cd solo instrumental (prêmio do Cosern Musical). Os súditos dessa galáxia quase em extinção agradecem.

Salve Sir. Edu!

Reverências do seu amigo e parceiro,

Carito
A GUITARRA FILOSOFAL: Edu tirando rock de pedra, revelando sua alma de guitar heroe!

(Pedal de efeito sobre foto de Giovanni Sérgio)
por Os Poetas Elétricos [20:53]
20.3.06
Lá fora


Abri as janelas da casa. O calor estava insuportável. Fui abrindo as janelas e só então percebendo como havia janelas na casa. E como era bonito lá fora. Eram tantas as janelas e era tão bonito lá fora que desisti de abrir as janelas e resolvi ir direto lá fora. Resolvi não esperar abrir todas aquelas janelas para trazer o lá fora para dentro. E adentrei no lá fora! Uma vez dentro, do lá fora, percebi que a minha casa não era tão lá dentro assim. Dentro mesmo era lá fora. Quanto mais eu entrava no lá fora mais aparecia dentro para eu entrar. E fui entrando por ruas e praças e flores e estradas e vales e mares e motos e carros e escarros... e de repente eu já estava dentro de um beco sujo, dentro de um restaurante chique, dentro do mar num mergulho com os golfinhos, dentro de alguém a gemer e querer mais. Querer mais que eu fique lá dentro. Tudo isso só porque eu resolvi ir lá fora. O calor realmente estava insuportável.

Carito

por Os Poetas Elétricos [12:02]
18.3.06
O ópio do Micróbio

Um dia ele apareceu, veio do vaso. Não de plantas. De cocô mesmo. Veio do fundo do vaso para o raso do apartamento.

- Esse apartamento dá pé. Vou ficar por aqui.

Foi ficando e se alimentando de tudo que via. E o que mais via era um homem e seu computador. Sentado, sempre, todo dia. O micróbio olhava pra cima e só via o fundo da cadeira com o homem sentado em cima.

- Pô! Melhor talvez fosse o fundo do rio do vaso do que esse raso. Esse raso não tá mais dando pé. O que será que esse cara faz o tempo todo sentado aí com esse computador? Ah! Preciso crescer pra descobrir isso. Isso aqui tá ficando chato. A mesma poeira de sempre. Vou voltar pro vaso, pra mesma merda de sempre. Aquela lá eu já conheço.

Mas não voltou pro vaso. E foi se alimentando de tudo e fez amizade com as traças e foi traçando tudo, livros, letras, até descobrir que estava comendo os livros do escritor que ficou puto com a situação.

- Também, a maior bagunça aqui, livro no chão, esse cara queria o quê? E olha o nome do cara: Thomas de Quincey. Vive doidão! Esse cara já morreu! Cara! Eu tô sabendo tudo desse cara com essas letras aqui dentro que eu tô comendo, e tô comendo muito, já tá chegando na mente, que história doida: "Confissões de um comedor de ópio". Será que esse ópio chega por tabela? Acho que tô doidão também! Quem sou eu? Um micróbio ou um homem? E que é que esse rato está olhando pra mim? Pôrra! Quer direito autoral pela frase, só porque tá sempre dentro dela? Já sei: sou um homem ou um rato? Besteira! Chega pro prato também. Amém! Que eu tô traçando tudo e já tô da altura da cadeira. Afasta aí cara! Chega pra beira! Quero ver o que você tá escrevendo.

E o micróbio virou micróbio-computador e foi se alimentando de tudo de novo, do monitor e...

- Por que é que esse mouse tá olhando pra mim. E você também, cara! Você é um homem ou um mouse?

Virou macróbio e não coube mais no apartamento. Ganhou o mundo, dominou o mundo, cheio de problemas para administrar, entrevistas pra dar, e até a mãe pra vender. Sua vida agora era pública.

- Que saudades do vaso. Aquilo é que era merda de verdade. Lembrou do homem sentado na cadeira e escreveu um livro:

"Confissões de um comedor de merda".

E se jogou no primeiro vaso que apareceu. E mergulhou fundo na vida privada.


Carito


Ilustração de Flávio Freitas
por Os Poetas Elétricos [04:53]
13.3.06
14 DE MARÇO - DIA DA POESIA


UMA MUDANÇA QUE ME HAI-CAI MUITO BEM:

Não me apego a uma vida a cores
Se vamos ao cinema
Mudo.


A POESIA ESTÁ NOIR!

A POESIA ESTÁ NO AR!


HAI-CAI BALÕES:


HAI-CAIS:

Marinheiros são tortos
Onde há portos
E hai-cais.

HAI-IZES:

As varizes
São raízes
Nas suas coxas.

HAI-MLET:

Sorver-te
Ou não sorvete
Eis o milk Shakespeare!

PRAZER À VISTA:

Geme
Às claras
Dos ovos!

SEX-BOX:

Espermas são carros velozes
Em busca do sexo
Ou posto.

SEX BOX 2:

Tanques de carros são vaginas
Engolindo bombas
De gasolina.

DE INVENTO EM POPA:

Em
BARCO
Naquilo que me CONVÉS.

TOMANDO VINHO:

É quando eu dou
Satisfação
À saciedade.

MATRIZ:

Toda matriz
Tá por um
Triz!

HAI-CÔCO:

O coqueiro balança
O côco cai
E é mais um hai-cai!


Carito
FELIZ DIA DA POESIA!
por Os Poetas Elétricos [17:58]
8.3.06
1 - AMOR

Se fez com pressa
Se faz compressa


2 - Para reflexão - A Costela de Adão: Questão EVAsiva?

Se o homem é um porco e torresmo a paciência das mulheres
A costela
A dão de volta

(Ou dão uma volta pra comê-la com cerveja)

A história da mulher (Eva) ter saído da costela de Adão é um osso duro de roer - (in)versão estranha já que o homem saiu das suas entranhas. De qualquer forma, já que a carne é melhor perto do osso, precisamos parar pra pensar sobre esse alvoroço. Como isso se resolve? Mais uma vez a palavra AMOR toma o texto de assalto:

- Meia nove e ninguém se move!


Carito
por Os Poetas Elétricos [17:32]
3.3.06
ALTO-RETRATO DE UMA REDE ENQUANTO JOVEM
Passei o carnaval armada em punho... Calma! Foi um carnaval tranqüilo. Estar armada em punho faz parte da minha natureza. É quando estou em minha melhor forma, totalmente esticada, relaxada, aberta, pronta para receber alguém. Sim! É verdade. Tenho recebido algumas pessoas. Mas não me ache vulgar. É como eu disse - faz parte da minha natureza.

E por falar em natureza, passei o carnaval no alto de uma varanda com vista para o mar!!! Por isso esse meu alto-retrato é com a letra "L" mesmo. Já me balancei muito no carnaval de Olinda, mas dessa vez o balanço também foi muito bom. Fiquei num camarote natural vendo o desfile da natureza passar... E ficar! As pessoas pulando as ondas do mar, os pássaros cantando, os galhos das árvores balançando e tocando percussão, os peixes fazendo acrobacias, carroças puxadas por burricos transformando-se em carros alegóricos na beira da praia, a areia dançando e a paisagem toda se abrindo em porta-estandarte para a percepção do carnaval da natureza!!!

Mas vi também coisas tristes nesse carnaval. Sabemos que o carnaval, independente de folia ou sossego, nem sempre é feito só de alegrias e que "ela" com sua fantasia mortal com foice e tudo não tem hora para chegar. E lembrei dos meus antepassados e de algumas redes-irmãs no interior do nordeste que ainda sentem isso na pele - ou melhor, no tecido, quando tristemente são transformadas em caixão no enterro levado pelo bloco da saudade... Faz parte da vida! Essa vida cheia de redes: rede de entregas, rede de intrigas...

Agora esse ditado popular que diz "caiu na rede é peixe" comigo não funciona. Pois nesse carnaval eu fui fiel, viu! Não recebi muita gente. Fui fiel a uma só pessoa. Ou melhor: duas. Um casal. É... eu e eles dois... um ménage à trois muito legal!!! Às vezes eu também ficava sozinha, sem ninguém... Ou melhor: com o vento. Teve um dia que ele me balançou tanto... Nossa! Fico toda arrepiada só de lembrar. Numa noite ele veio com a chuva e me deixou molhadinha!!! Então eu fui fiel a mais gente... Vento também é gente, né? Ou não? Eu sou gente? Não me diga que eu não sou gente... Vou ficar me sentindo como um objeto. Uma rede-objeto, usada, e depois literalmente enrolada. Mas não ligo. É como eu disse. Ficar aberta e ser enrolada faz parte da minha natureza. Gosto de ser usada. Eu só não quero que me esqueçam enrolada dentro de um baú da infelicidade. Já escutei que vão viajar comigo na Semana Santa. E se quiserem, podem me deixar esperando aqui nessa varanda mesmo. Prometo não cometer nenhum pecado. E honrar a sexta-feira da paixão.

Bem, feriados à parte, dizem que agora estou sendo trocada por uma outra rede: a rede mundial dos computadores. Pensa que não conheço essa outra rede? Sei o que é isso sim! De vez em quando deitam em mim com livros para ler, mas também já recebo pessoas com esses modernos notebooks conectados a internet sem fio. Hum! Nisso não me fio! Vejo o povo nervoso querendo mais velocidade na rede... Na minha rede não! O legal é justamente balançar a rede devagarzinho, espreguiçando as idéias, como se o mundo todo fosse uma suave canção... Pergunte a Dorival Caimmy!


"A rede" por Carito

Redeografia: radiografia de uma rede de entregas!

por Os Poetas Elétricos [14:36]
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Palarveando
A Sina de Ina
Prelúdio Erótico do Poema Machão
O Espírito das Letras
O Aniversário de Gni
 
Assista aqui o video vencedor do Curta Natal 2006
"PALARVEANDO" do diretor Mário Ivo Cavalcanti

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