24.2.06
EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA REDE!

Lendo o livro do folclorista e escritor areia-branquense Deífilo Gurgel (AREIA BRANCA - A TERRA E A GENTE), tomei conhecimento de uma história no mínimo curiosa. E sempre que é Carnaval gosto de lembrá-la de uma forma ainda mais especial. É a história de um senhor de Areia Branca que há muito tempo atrás, passava todos os dias do ano completamente bêbado, desarrumado, na sarjeta. E somente durante um certo e curto período do ano ele se encontrava sóbrio e impecavelmente arrumado: justamente no Carnaval!

Histórias como essa, enriquecem a tradição do Carnaval como um momento de ritual. Esse rito pode ser de grito, mas também de silêncio. É no período do Carnaval que muitos também aproveitam o feriado para descansar. Muitos têm outra sede: eu quero é botar meu bloco na rede!

Carito

Em breve, o aLto-retrato da rede: camarote natural para o desfile constante da natureza...
por Os Poetas Elétricos [17:16]
21.2.06
FATO & FOTO

A fotografia às vezes é uma porção de ilha cercada de nuvens por todos os lados

Chegamos à ilha da Costinha logo no início da tarde. Aquela poesia da natureza selvagem que rima com arde, e mete a luz na nossa cara, e nos deixa assim cheio de reticências nos olhos lacrimejando a certeza de que ali realmente o sertão encontra o mar, o rio, o mangue... Tínhamos que chegar ali bem cedo para dar tempo do sol se por na máquina do fotógrafo. Como uma flecha, pegamos o barco que quase encalhou. Mas quem nos pegou mesmo foi a própria natureza. Oh, céus! São Pedro nos pregou uma peça e deixou nossas mentes nubladas: será que não vai dar para fazer nenhuma foto? Afinal, não é todo dia que chega por aqui um fotógrafo famoso para registrar o que eu não páro de dizer aos quatro cantos sobre os nossos encantos: temos nossa própria África, potiguar e cinematográfica!!! Enquanto esperávamos o céu limpar em cima da duna, escutávamos as histórias do fotógrafo famoso. A fotógrafa-assistente em silêncio e os meninos do vilarejo que junto comigo também viraram assistentes escutavam atentos seus relatos fantásticos mundo afora, Brasil adentro. O dia em que o fotógrafo desceu de helicóptero nos confins de Roraima e o pássaro de ferro foi imediatamente cercado pelos índios. O tempo passou tantas histórias e agora ele estava ali, litoralmente passado, quase que fotograficamente assoreado junto com o rio. O areal forte e a falta de sorte na luz certa fizeram com que os equipamentos continuassem guardados nas bolsas pesadas, nas nuvens pesadas... A luz estava contra. Mas a correnteza a favor. Um outro pequeno barco à vela desceu o rio e veio chegando para junto da foto que o esperava. "Às vezes ele enrola a vela pra poder passar", diziam os meninos preocupados. Mas ele continuou com a vela aberta e o fotógrafo disparou mais que fotografias: a vela aberta na mente do fotógrafo regia o universo com paciência mestra. A natureza encalhou o pequeno barco e parou a foto. Os pescadores desceram para compor o quadro a quadro, empurrando a embarcação no ensaiar das águas. Todos nos transformamos em timoneiros, proeiros, parando o barco com o olhar, empurrando o barco com o olhar, no desejo atracado forte em cima da duna de prata. Tudo virou prata e fomos embora com o sol. Esse foi um fato real. O lugar existe. A ilha da Costinha fica no Rio Grande do Norte, em Porto do Mangue, próximo à praia de Ponta do Mel. O fotógrafo famoso existe: Araquém Alcântara. E eis a terra prometida, a água prometida, a luz prometida, a foto prometida pela espera e pela força do desejo. Se todo homem é uma ilha, é certo que precisamos conhecer mais o que nos rodeia.

Carito


Foto de Araquém Alcântara

Araquém Alcântara na web:
www.araquem.com.br

por Os Poetas Elétricos [01:52]
19.2.06
contratempo

casou com o futuro
e a ironia é que foi
de papel passado


Carito
por Os Poetas Elétricos [21:26]
17.2.06
O Turco

O turco tomou o texto de assalto. Entrou na sala e foi logo dizendo:

- Se essa história é no interior tem que haver um turco!

E eu pensei: como é que esse turco sabia disso, se só agora que eu dei fé que a minha imaginação colocou ali uma porta e aquele povo todo olhando pra dentro dessa sala.

Cheguei na porta e tinha muita gente e juntando mais. Eu estava numa cidade do interior. Então perguntei:

- Que cidade é essa?
- O senhor não sabe? É São Francisco das Almas.

E o turco atrás de mim, parecendo alma e repetindo com uma voz engraçada:

- Seu Francisco das Almas?

Eu já vi que esse turco é novo no pedaço. Não tem nenhuma experiência em cidade do interior e já vem tirando onda. Que é que eu faço agora? Minha imaginação parece querer me abandonar. E o turco também. De repente o turco foi sumindo da sala, como se evaporando...

Pensei que o turco foi só um motivo, sei lá, algo passageiro para eu aqui ficar nessa cidade do interior. Olhei para fora e vi uma serra linda, um rio, uma mata, quando mais olho mais vejo. E eu nem consigo parar de olhar. Um circo, um terreno baldio, uma poça de lama.

- Choveu aqui?
- O senhor não sabe não? Choveu quando o senhor chegou, lembra não? Acabou de chover.

É, tá um friozinho gostoso e um cheiro de café quentinho...

- Fiz agora, seu moço. Pode chegar.

Fiquei foi esperto e proseei tanto que não vi que o dia adormeceu.

Dormi tão bem, tão bem, no meio da sala, e nunca gostei tanto do meu velho cobertor. Acordei com os meninos me acordando junto com o galo:

- O senhor não vai continuar a história não?



Carito



Ilustração de Flávio Freitas

por Os Poetas Elétricos [19:46]
15.2.06
O GUARDIÃO DO NADA
Ilustração de Flávio Freitas

O farol nem era tão grande. Tinha o quê? Uns 6 metros? Tinha nada. Tinha talvez uns... Sei lá, acho que nem 2 metros! Na verdade aquele era o menor farol que eu já tinha visto na minha vida. Sem falar, claro, nos faróis de brinquedo. Ele parecia realmente de brinquedo. E aquele homem ficava lá toda noite. Equilibrando-se do lado de fora do farol, nas bordas do farol. Porque não tinha como ninguém entrar no farol. Ele era realmente muito pequeno. A manutenção era feita do lado de fora. A lâmpada era acesa do lado de fora. A lâmpada era apagada do lado de fora. A lâmpada era trocada do lado de fora. E aquele homem sempre do lado de fora. Olhando não sei o quê. A luz era fraca. Não iluminava nada. E o mar que tinha em frente havia secado. Secado mesmo! Ficou só areia. Peixes mortos, conchinhas, pedrinhas, um grande deserto, sertão brabo. Mas toda noite ele estava ali olhando para a escuridão. Movimentava-se muito. Uma vez até caiu do farol. Queda pequena. Nem deu pra machucar. Ele levantou-se rápido, subiu novamente no farol e ficou de sentinela como de costume. Já o meu costume era ver aquele homem toda noite. Tomando conta do nada. E eu tomando conta da vida dele. É que ele parecia ver tanta coisa... E assim eu o via vendo tanta coisa. Passei um bom período da minha vida assim. Olhando para o guardião do nada. Toda noite eu me preparava para vê-lo de longe, olhando o longe. Eu preparava lanches, pipoca, às vezes uma bebida quente, conhaque, malte, essas coisas que aquecem a alma e entorpecem a mente. E toda noite eu ia para essa grande e solitária sessão de cinema, com meus lanches e meu casaco. O vento era sempre forte e a noite sempre longa. Foram noites longas. Noites belas, maravilhosas. Das melhores da minha vida.


Carito


por Os Poetas Elétricos [21:54]
13.2.06
O HOMEM DO CHAPÉU PANAMÁ
Quando ele deixou seu chapéu cair eu disfarcei e discretamente tentei pegá-lo. O homem se afastou, o chapéu também. O chapéu andou. Foi o vento, pensei. E tentei pegá-lo novamente. O homem já ia longe. O chapéu voou novamente. Parecia andar. Não! Ele corria. E eu não sabia se o chapéu fugia de mim ou se corria atrás do homem. Ou as duas coisas. Comecei a correr. O chapéu corria e olhava para trás assustado. Olhava para mim e corria. O chapéu começou a gritar. O homem escutou, parou e colocou a mão na cabeça. Virou-se rapidamente e sorriu. Agachou-se e esperou o chapéu chegar até ele como se o chapéu fosse um cachorrinho. Seu cachorrinho. O homem colocou o chapéu na cabeça e me viu. E me chamou. E veio até mim. E disse:

- Por favor, experimente.

Foi só aí que percebi que era um chapéu panamá. Sempre quis ter um chapéu panamá. Mas se eu não tinha percebido que aquele era um chapéu panamá, porque quis roubá-lo? Até onde eu me lembre também nunca fui ladrão. Coloquei o chapéu panamá na cabeça e depois o devolvi. Agradeci e vi o homem se distanciando com seu chapéu panamá na cabeça. O homem olhou pra mim e sorriu, como se me esperasse. Resolvi comentar com uma senhora que passava:

- Bonito aquele senhor com o chapéu panamá, não?

A senhora se afastou e correu. E correu na direção do homem. E se juntou a ele. E depois outras pessoas do parque também se juntaram a ele. O chapéu voou e caiu no lago. E começou a boiar. Como um bote. E todos entraram nele. Sentaram na aba do chapéu. Então todos olharam para mim e gritaram:

- O senhor não vem?

Tinha umas 20 ou 30 pessoas no chapéu e eu resolvi me juntar a elas. O que eu estava fazendo ali no meio daquela gente? Tinha que haver uma explicação. O chapéu começou a navegar no lago em direção a uma cachoeira. Fiquei aflito, mas todos estavam muito felizes e pareciam esperar por aquele momento. O chapéu ia descer a cachoeira. Apareceu um homem na margem do lago e disse:

- Ainda é tempo de desistir. O senhor pode voltar para a margem. E ao dizer isso, me estendeu a mão e seu braço foi se esticando como se fosse de borracha até perto da cachoeira no momento em que o chapéu panamá ia descer suas águas.

Afastei-me daquela mão e resolvi descer a cachoeira. Nunca ri tanto em toda a minha vida. Enquanto descia a cachoeira ainda olhei para a borda do lago e não vi mais ninguém. Quando subi à superfície me perdi do grupo e nadei até a outra margem. Ao chegar encontrei uma senhora muito bonita que me perguntou, segurando o chapéu panamá:

- Esse chapéu panamá é do senhor?

E eu falei para ela:

- Por favor, experimente.



Carito


Ilustração de Flávio Freitas

por Os Poetas Elétricos [22:38]
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